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"El sistema nervioso no puede distinguir la diferencia entre una experiencia imaginada y una real, y reacciona de manera apropiada a los que nos imaginamos que es verdad".
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La Rocka!
Para uma menina com uma flor 
Este é o título do livro que tenho na minha mao, o qual achei que era só poemas romanticos, mas como era de Vinícius de Moraes, comecei a ler.
Logo na introduçao vejo que na verdade este livro é uma seleçao de cronicas de jornais desde 1941 a 1966, os quais mostram o caminho do poeta disfarçado em cronista.
Com grande esforço, escolhi uma cronica cheia de cheiros, bons e maus. Acho que o escolhi porque eu também sou vidrada em cheirinhos, gostando de abrir as narinas na beira do mar, depois da chuva, botando um casaquinho no meu cachorrinho, minha mae saindo do chuveiro, livro novo...
Sentido da Primavera
AO ACORDAR, naquele dia preliminar da Primavera, senti imediatamente que alguma coisa tinha acontecido de muito fundamental na ordem do mundo. Eu, homem de despertar difícil, pulei da cama tao bem disposto e leve que, por um momento, assustei-me com a sensaçao indizível que sentia. Ao pegar o copo habitual para a minha água matutina, notei que se achava cheio de uma substancia volátil, penetrada de uma linda cor violeta. E nao sei porque bebi do copo vazio, estanguladamente, o ar da Primavera, de gosto azul e fragrancia fria, com um peso específico de sonho.
Durante alguns minutos nada me aconteceu. Tomei meu café, fumei um cigarro e dei uma olhada nas coisas. Mas de repente senti que em mim a matéria começava a se transformar. Palpitaçoes violentas confrangeram-me o coraçao e eu mal conseguia respirar. Vi minha filhinha Susana distorcer-se a minha frente como ante um espelho concavo e logo em seguida penetrou-me um cheiro tao monumental que pensei se me tivesse enlouquecido a imaginaçao. Era um cheiro de menininha, um cheiro que eu conhecia bem, o próprio de minha filha, mistura de talco, suorzinho, lavanda, chichi, sabonete, leite e sono; mas desta vez com uma tal amplitude que eu podia perfeitamente distinguir cada um dos sub-cheiros da sua composiçao. No talco, por exemplo, senti um cheiro de polvilho que nao o abona, talco tao caro! e senti também que no leite havia um cheiro de água, o que só vem corroborar a certeza geral de que o leite, nesta cidade do Rio de Janeiro, anda sendo fartamente batizado.
Depois senti milhoes de cheiros. Nao os descreverei todos para nao ferir, com o desagrado de alguns, os ouvidos -diria melhor: os narizes- do leitor mais delicado. Como todo mundo sabe, a praia do Leblon nao cheira a rosas -e caiba-me aqui mais uma vez chamar a atençao das autoridades competentes para o crime que é despejarem os esgotos naquelas águas onde se banha o que de mais inocente há no bairro: a criançada rica, remediada e pobre das ruas pavimentadas e da Praia do Pinto. Enfim, estou a fugir do meu assunto, mas valha-me a referência para registrar um cheiro enorme que senti na ocasiao: um cheiro de miséria, que só poderia provir da dita Praia do Pinto, lugar, como todo mundo sabe, onde se comprime, em barracoes infectos, a mais negra, sórdida e desamparada indigência da zona.
Mas até já ia me esquecendo: senti um cheiro de nazismo, súbito. Ora -direis- como é êsse tal cheiro de nazismo? Reconheço a dificultade de descrevê-lo em toda a sua complexidade, mas penso que era um cheiro branco, inodoro, perfeitamente ortodoxo no entanto, com laivos de salsicha, chope e cachorro policial, um cheiro de radiotelegrafia e talvez de cemitério. Nao podia, porém, precisar de onde êle vinha, querendo me parecer, sem haver nisso qualquer insinuaçao, que chegava da rua Visconde de Pirajá, possívelmente de algum café ou bar, dêsses onde se reunem os nazistas conhecidos e desconhecidos que continuam a se aporrinhar mútuamente em grupos, pelos bebedouros de importaçao germanica que ainda existem nesta cidade hospitaleira.
Tudo isso constituía um fenomeno muito curioso. Os cheiros mais estranhos, os mais perversos, os mais doces, os do amor, os da solidao, perseguiam-me como outros tantos espíritos da Primavera. Um cheiro dolorosíssimo de morte chegou-me ao mesmo tempo que um odor de nascimento. Soube que alguém morria e nascia naquele instante particular do mundo e senti o cheiro da minha vaidade de me saber dono de um tao grande privilégio. Curioso também: só nao conseguia sentir bem, em meio aquela sinfonia de cheiros, o aroma das coisas óbviamente cheirosas como as flores e as mulheres em geral. O perfume do mar, por exemplo, eu o sentia em toda a sua frescura, verde, salso, infinito, e também o cheiro da areia que por sua vez cheirava a nuvem. Cheiro horrível era o de uma mosca que naquela ocasiao voejava a minha volta: bicho imundo! Tive que fugir para a varanda onde senti o vigoroso cheiro da madeira dos troncos, um rubicundo cheiro de sol e... ah, êsses gatos miseráveis! Um dia ainda passo fogo num!
Ao sentir um cheiro de cachaça pensei comigo que meu amigo... (nao, nao o desmoralizarei) devia estar por perto: e efetivamente, pouco depois chegava êle com um queijo de Minas debaixo do braço, cujo cheiro me deu vertigens. Mas eu acho o cheiro de queijo tao bom (contra, bem sei, a opiniao de quase todo mundo, que, estou certo, irá rir de mim) que seria capaz de usá-lo no lenço, quando, naturalmente, nao houvesse ninguém por perto. Aliás, poderia usar no lenço também cheiro de graxa ou gasolina, cheiro de torrefaçao de café ou mesmo cheiro de padaria de madrugada, quando o pao é feito.
Tantos cheiros, tantos... O cheiro do teu riso, minha adorada, de tua boca quente e sem malícia. O cheiro de tua pureza, coisa inefável, parecendo sandalo ou alfazema. O cheiro de tua devoçao de cada instante, cheirando a alecrim ou mato verde, o cheiro de tua emoçao constante, como o da terra viva molhada de chuva...
E depois senti um cheiro de sobrenatural, um gigantesco cheiro de cristal transparente em vibraçao, um cheiro de luz antiga, ainda fria dos eternos espaços por onde passara em seu caminho para a Terra. A Primavera cheirava toda para mim, só para mim, desnudada, a dançar na manha azul perfeita, embriagante, toda olhos claros e sorrisos, a abrir com beijos de brisa a boca infantil das corolas nascituras. E dentro da Primavera senti um cheiro mágico de Paz.
Novembro de 1944 